as ruas e o vinagre

Os protestos são pacíficos e, dentre 20 mil pessoas, meia dúzia vandaliza. E essa meia dúzia pode muito bem ser meia dúzia de gente infiltrada que estão lá pra incitar a violência. O que a gente tá presenciando é algo muito maior. É repressão política. Algumas das pessoas que estão sendo levado pelos policiais estão sendo considerados presos políticos: onde já se viu um simples manifestante ter uma fiança de R$20 mil?

A briga não é por causa dos 20 centavos. Os 20 centavos é que foram a gota d’ água, principalmente numa gestão que baseou sua campanha inteira na melhoria dos transportes públicos. Não são só 20 centavos. A briga é pelo direito do povo de ter voz. De falar. De ser ouvido. Afinal, isso aqui era pra ser uma democracia, certo?

O povo é explorado por tantos lados que esses vinte centavos, hoje, significam que algumas camadas da população precisarão escolher entre almoçar ou pagar a passagem pra ir ao trabalho. Você acha isso certo?

Pagar R$3,20 numa única passagem para o transporte público, enquanto o salário mínimo é de R$678, representa que, se alguém precisa utilizar o transporte para trabalhar, ida e volta, seis vezes por semana, 22% da sua renda está comprometida com seu transporte. Daí você me diz:

– E o vale transporte?

Por mais que seja uma obrigação trabalhista do empregador, nem todo mundo tem acesso a isso. Nem todo mundo está registrado sob a CLT, como você, como eu. E aí, a pessoa tem que arcar com os custos de ir e vir, e sustentar sua família. E ela não tem escolha. Essa é a realidade dela.

Essa luta começou pelo direito do povo de ter um serviço público que seguisse os cinco princípios básicos que a administração deveria ter sempre presentes:

  • PERMANÊNCIA, que impõe a continuidade no serviço;
  • GENERALIDADE, que impõe serviço igual para todos;
  • EFICIÊNCIA, que exige a atualização do serviço;
  • CORTESIA, que exige o bom tratamento pelos profissionais que operam os serviços;
  • MODICIDADE, que impõe tarifas razoáveis.

Isso você pode pesquisar, é lei. A gestão do transporte público foi delegada ao poder privado, mas a fiscalização do serviço quanto a esses princípios é cabível ao Poder Executivo. As pessoas foram para as ruas apenas para reivindicar aquilo que é nosso por direito.

E aí, nas ruas, a gente acaba presenciando cenas como as descritas nesse post: uma polícia despreparada, que foi instruída a massacrar a população que saiu do conforto do sofá pra exigir seus direitos. Respondeu com violência absurda um protesto pacífico. Prendeu manifestantes por porte de vinagre, cuja única utilidade na situação era proteger os manifestantes dos ataques com gás lacrimogêneo por parte da polícia.

O carro de um senhor de 74 anos foi atingido por uma bomba de efeito moral. Um senhor de 74 anos, gente. Um rapaz levou um tiro de bala de borracha ao tentar proteger um garoto, que procurava o irmão mais novo. Gente carregada a força pra fora de um hospital.

Só que agora o povo descobriu que pode se fazer ouvir e que pode mudar esse cenário. A mídia também foi atingida e agora sua parcialidade está do lado da população. Isso não vai acabar enquanto a tarifa não baixar.

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