carta de desculpas ao meu amor correspondido

Meu amor,

Escrevo essa carta porque te amo, e algo me leva a pensar que você me ama também. Escrevo para pedir desculpas.

Se por acaso, meu amor, o que você procura é perfeição, peço desculpas por desperdiçar o seu tempo. Eu tenho em mim um universo de defeitos, e os piores deles são também minhas melhores qualidades.

Ou então, se o que você procura é sossego, sinto muito por desapontar-lhe. Eu sou volúvel, sou mutável, sou instável. E eu vou te deixar louco, se você permitir.

Amor, eu vou passar horas pensando, calada, distante, e então, de repente, eu vou te fazer perguntas desconexas e aleatórias, pra então ficar pensativa novamente. Isso vai te intrigar, eu sei. Mas é que eu penso assim, em partes. E, quando meu pensamento estiver completo, eu vou querer dividir com você, provavelmente no momento mais inoportuno que eu encontrar. Portanto, deixo aqui minhas desculpas.

Eu vou querer fazer coisas para você e por você: bolos, origamis, loucuras. E eu não espero que você faça o mesmo por mim. Mas, se você quiser, eu vou amar. E eu vou querer retribuir. Eu vou sempre retribuir, e vou achar ruim se você achar ruim. Então, se você se importa com isso, deixo aqui minhas desculpas.

Amor, eu vou ouvir todos os tipos de música que existem na face desse planeta. E eu vou querer que você ouça também, comigo. Quando a música for ruim, sorria, acene e diga que não gostou, eu vou entender. Mas eu vou te mostrar um monte de artistas, estilos, instrumentos. “Olha só o banjo dessa música!”, “o contralto dessa moça é absurdo” e “cada verso dessa música toca no fundo da alma”, bem como outros comentários, vão acontecer frequentemente. Por isso, deixo aqui minhas desculpas.

Eu vou dar muita atenção para os meus amigos, quando eles precisarem. Porque, para mim, um problema de alguém querido é também um problema meu. Então não se sinta mal se eu acabar passando tempo demais com uma amiga que acabou de perder o emprego, porque eu também farei o mesmo por você. E mais. Muito mais.

Desenharei, escreverei. Muito. Rabiscarei um monte de papéis. E eu nunca vou te deixar ver até que eu queira que outras pessoas vejam. Também peço desculpas por isso.

Eu vou te abraçar forte de vez em quando, como se fosse o nosso último abraço. Porque eu não sei quando nosso último abraço vai acontecer. Então peço desculpas por quaisquer desconfortos.

De vez em quando, eu vou acordar antes de você, e vou te ver dormir sob a luz do sol entrando através da cortina. Vou querer guardar aquele momento na memória. Peço desculpas por isso, meu amor.

Eu vou te enlouquecer com minhas manias! Não pisar nas linhas da calçada, pular um certo número de peças do piso, criando um padrão na caminhada. Sempre começar a subir ou descer a escada com o pé direito, pra saber se a escada tem um número par ou impar de degraus. Diagramar nossos pratos, copos e talheres na mesa. Então, desculpe-me. Eu tento sempre não incomodar.

Mas eu serei sincera, amor. Às vezes rude, mas sincera. E fiel. E leal. Porque, amor, escrevo essa carta para você, a pessoa com quem decidi compartilhar minha vida e meu coração. Então, meu amor, peço desculpas por virar sua vida ao avesso, mas, se eu te escrevi essa carta, é porque eu te quero por inteiro, e espero que você me aceite, apesar do universo de defeitos.

Te escrevo para contar um pouco de mim, porque às vezes falar não me basta, me faltam palavras na boca. Te escrevo porque você significa tanto, tanto na minha vida!

Te escrevo porque te amo, meu amor.
Te escrevo porque estou ansiosa para te conhecer.

Com amor,
Sue.

Anúncios

fones de ouvido

Eu ando sempre de fones de ouvido. Sempre. Eu sinto essa necessidade, porque eu não gosto de ouvir as conversas das outras pessoas. E eu não gosto de ouvir as conversas porque eu sou preconceituosa pra caramba. Sim, meu preconceito com gente que fala merda é bem grande.

Estou de férias, aproveitando pra resolver uma série de assuntos, mas a greve dos metroviários atrasou um pouco a minha vida. Ainda não consegui resolver metade do que eu precisava, não consegui ir aos museus que queria, não consegui. Fazer o que? Acontece. Os metroviários estão no direito deles.

Estou numa fila. Tem muita gente. Eu tô sem fones de ouvido.

— Eu duvido que até o fim do dia eles continuem com isso.
— Quem?
— O povo do metrô. Eu duvido que eles continuem parados. Já mandaram 80 embora. Se até o fim do dia não voltar, vai mais 80. E tá certo, tem que mandar mesmo.

— Mas sabe o que é? É isso que eles querem mesmo. Afundar ainda mais esse país.
— É, e agora eu quero ver. O tanto de protesto e de greve que tá tendo bem quando vai acontecer a copa. Não queria a copa? Agora eu quero ver. O tanto de assalto a gringo que tá tendo na Paulista, eu quero é ver se eles vão voltar. É que não vira notícia, não passa na TV.
— Mas passa sim! Eu vi esses dias. O que não dá é essa galera que fica aí protestando. Quem não tem moradia eu até entendo, agora eles têm casa, tem trabalho, fica aí fazendo bagunça e atrapalhando a vida dos outros.
— É tudo um bando de desocupado.
— Lá perto de onde eu moro fizeram umas casas populares, deu uns meses invadiram tudo. E não é sem teto que invade não, é gente bem vestida.

Nessa hora, eu tive de colocar os fones de ouvido. Fiquei com medo de ser contagioso.

easter eggs

Ganhei um ovo de páscoa. Isso não é normal. Eu não ganho ovos de páscoa. Acho que não ganho um único ovo de páscoa desde a páscoa de 2009, quando trabalhava no Yahoo! e todos os funcionários ganharam um ovo de 150g. E, nessa páscoa, meu pai me deu um ovo de chocolate. Trufado. Meio amargo.

Pode parecer estranho pra maior parte das pessoas, mas eu não estou acostumada a ganhar presentes. Nem mesmo de aniversário. São raras as vezes, são raras as pessoas. A verdade é que ninguém lembra. E eu já me acostumei com isso.

Eu me acostumei a não comemorar datas, a não esperar ser lembrada, sabe? Me acostumei até a não ter companhia pra ir ao cinema, mesmo com amigos. Comecei a ser auto-suficiente até mesmo nisso. Eu não espero mais nada, afinal, estou sempre coadjuvando outras histórias.

Eu já me acostumei. Por isso é estranho ganhar um ovo de páscoa.

¡adiós!

é pra eu falar então? agora? tá, olha só!
meu bem, meu bem, você me fez tão mal!
será que você não vê, meu bem, que eu nunca dancei no carnaval?
então me deixa de fora, mas me deixa tentar.
é, me deixa dançando, mas me deixa dançando o meu tango, que é isso o que eu sei dançar.
tudo muda, meu bem, e também qual é a graça se não mudar?
será que você não vê, meu bem? todas as vezes que eu parti eu nunca prometi voltar.
e todas as vezes que eu fui, eu nunca prometi ficar.